Tem uma coisa que eu vejo acontecer com muita frequência com as pessoas que escolheram empreender, o dinheiro entra na empresa e vai tudo para o mesmo lugar. Paga fornecedor, paga uma conta pessoal, compra alguma coisa para a empresa, faz um Pix para si mesma, faz as compras no mercado e segue o mês. No final, as contas até podem estar pagas, mas quando eu pergunto “quanto você pode tirar da empresa por mês sem prejudicar o negócio?”, “qual é o seu salário mensal?” muitas vezes não existe uma resposta. E esse é um dos primeiros sinais de que está na hora de separar melhor a vida da empresa da vida pessoal.
Ter um CNPJ também significa entender que a empresa precisa ter a própria vida financeira. Você precisa saber quanto ela fatura, quanto vai para impostos, fornecedores, funcionários, serviços contratados e despesas fixas. E você, como sócia, também precisa ter um valor definido para receber. Não dá para retirar R$ 3 mil em um mês, R$ 8 mil no outro e, quando aparece uma despesa pessoal maior, simplesmente buscar mais dinheiro no caixa da empresa. Ter um pró-labore ou uma retirada organizada ajuda a entender quanto custa a sua vida pessoal e, principalmente, quanto a empresa realmente consegue pagar para você.
Eu gosto de fazer uma analogia simples que ajuda muitas pessoas a entender: pense na sua empresa como se ela fosse uma outra pessoa. Ela tem dinheiro, contas, compromissos e precisa construir a própria segurança. E, todos os meses, ela paga você pelo seu trabalho. Ela não pode funcionar como um banco onde você pega o dinheiro emprestado toda vez que precisa comprar alguma coisa ou quando surge um imprevisto pessoal ou uma oportunidade de comprar um bem que nem é tão urgente. E se ao final do período a empresa efetivamente teve lucro pode ver com a contabilidade para distribuir esse valor. Mas isso é diferente de simplesmente olhar o saldo da conta e entender que aquele dinheiro está disponível para você.
Essa organização começa a responder perguntas muito maiores que tenho certeza que você pensa. Posso contratar uma pessoa agora? Posso assumir mais um serviço mensal? Quanto posso gastar com fornecedores? Tenho dinheiro para investir? Se o faturamento cair no próximo mês, a empresa consegue continuar funcionando? Quanto do que entrou realmente sobrou?
É aqui que também entram as reservas. Assim como é importante construir uma reserva pessoal, a empresa precisa ter segurança para enfrentar meses mais fracos e despesas inesperadas sem depender do dinheiro da sócia ou fazer com que a sócia dependa dela para qualquer emergência pessoal.
Aqui na Pivot, por exemplo, cada centavo que entra e sai da empresa é registrado. A ideia não é ter controle por ter controle, mas conseguir olhar para os números e entender o que eles estão dizendo. Quanto foi gasto, quanto ficou comprometido, quanto pode ser retirado e quanto precisa permanecer dentro da empresa para sustentar os próximos passos e qual é a previsão que vamos ter nos próximos meses.
Se hoje você mistura conta pessoal e empresarial, não tem uma retirada definida e não sabe exatamente quanto sobra no final do mês, eu começaria pelo básico: separe as contas, defina quanto você recebe, registre todas as movimentações e crie reservas separadas para você e para a empresa. Organização financeira não serve só para saber para onde o dinheiro foi. Ela serve, principalmente, para dar clareza sobre até onde você pode ir daqui para frente.



